Criticar paixões é algo complicado. Apaixonados são pessoas abastecidas pela devoção e nem mesmo a mais sensata das opiniões contrárias cai bem, portanto, eis o risco em se abordar tais assuntos. Sei bem como é, passei minha adolescência rechaçando trekkers e suas teorias de supremacia para cima de Guerra nas Estrelas no circuito de convenções paulistano e, mais tarde, na internet. O nível de envolvimento diminuiu, mas a paixão continua por aqui e dá vontade de subir pelas paredes quando vejo coisas do tipo “Saga Crepúsculo”, que de saga não tem porra nenhuma, mas tudo pelo marketing. E se fã Guerra nas Estrelas tem deuses, um deles é o marketing… o outro é George Lucas, mesmo com suas besteiras costumeiras. Enfim, fã é um bicho complicado. Mas algumas coisas precisam ser ditas para quem tem disposição para compreender e realmente se importar com o objeto de sua paixão. Se você gosta, é preciso apreciar e, especialmente, respeitar defeitos e erros. É como ser cristão, ao acreditar em Deus é impossível dizer que o Diabo não existe. Pensei muito, mesmo, se publicava, ou não, esse texto. Tudo isso para falar sobre Demi Lovato, cantora, atriz e ídolo mundial.
É difícil entrevistar esse tipo de gente, especialmente os treinados pela Escola Disney Channel de Respostas Prontas e Sorrisos Maravilhosos. Conseguir algo autêntico é um parto e isso, em parte, é culpa da imprensa, que tem certeza que sabe o que o leitor/espectador quer saber e fazem as mesmas perguntas. Alguém deveria fazer estatísticas sobre a quantidade de “quando foi seu primeiro beijo?”, “como é ser amigo(a) de tanta gente famosa?”, “o que você faz quando não está trabalhando?”, “quando tiver que escolher entre ser ator ou cantor, o que vai ser?”, e por aí vai. O resultado é um só: respostas ensaiadas e chatas para diabo. É a escravidão do “soundbite”, aquela frase bonitinha feita para aparecer no meio da reportagem de TV.
A Disney é craque nisso, mas depende muito do astro em questão. Lembro de minha primeira entrevista com Miley Cyrus, em 2008. Mesmo com todo esse direcionamento, a menina tinha espírito e estava disposta a, literalmente, mudar o mundo… aos 16 anos! Algumas perguntas esbarraram nos ensaios, mas com o incentivo certo, conseguiu expor suas idéias. E é isso que entrevistas representam: pessoas expondo idéias, tentando convencer seu público ou reforçando suas crenças.
Depois de entrevistar Miley, Selena Gomez, Vanessa Hudgens e a querida Miranda Cosgrove, foi a vez de conhecer Demi Lovato. E foi um horror. Isso a transforma numa má pessoa? Não, mas coloca seu profissionalismo e relevância em questão. Exagero meu? Prefiro chamar de impressão em primeira mão. Enquanto assistia a Camp Rock 2 [que é ruim de doer], não tirava os olhos de Demi para ver se em algum momento ela conseguiria parar com aquele sorriso forçado, típico da Disney. Ok, compreensível, pois, como a coreógrafa de High School Musical me disse, “sorrir é melhor que ficar sofrendo e precisamos alegrar nosso espectador”. Concordo em partes. Ponderação é fundamental. E isso falta na atuação de Lovato, artificial ao extremo num filme artitificial e desnecessário por natureza. No show ao vivo, que assisti na noite anterior à entrevista, ela foi bem, sabe se conectar com o público e entrega o deslumbre e carisma que esperam dela. Por mais previsível que possa parecer, essa é a dinâmica daquela negociação entre fã e artista. Eles querem, ela entrega e todo mundo sai feliz.
Assim como os Jonas Brothers, Demi digitava alucinadamente ao telefone enquanto meu microfone era instalado. Seu semblante era sério e, de certo modo, maduro. O telefone era seu mundo. Tentei brincar perguntando se estava no Twitter, mas, sem olhar, respondeu que não. Até comentei de uma foto que ela havia enviado um dia antes e que o Borbs, da MTV, fez questão de compartilhar com seus amigos. Deu uma risadinha e só. Tudo bem, ninguém tem obrigação de ser simpático, pessoas tem dias ruins e nunca se sabe. O que me surpreendeu foi a transformação que aconteceu quando o produtor disse “Estamos no Ar”. Ela guardou o telefone com a mesma velocidade em que escondeu o rosto sério e abriu aquele sorrisão de orelha a orelha. É o milagre da TV.
A entrevista será publicada em algum momento nessa semana, no portal que me enviou, mas o resultado me entristeceu. Tratei de alguns assuntos recebidos muito bem pelas estrelas anteriores, mas o festival de respostas da linha “adoro meus fãs, faço tudo por eles, canto o que eles gostam” foi meio chato. Mesmo na Disney, é possível ter seu orgulho artístico e acreditar na sua relevância individual, afinal, os fãs gostam do resultado de uma combinação [mensagem+embalagem+sonho] e não de algo meramente composto para agradar. Quando se faz tudo para agradar outros, não se faz nada para construir ou aprimorar o indivíduo. Não sei se foi o desinteresse da moça, que mesmo no breve intervalo de 1 min para troca de fita, fechou a cara e voltou a teclar alucinadamente, ou a mão de ferro de algum agente linha dura, mas Demi Lovato cometeu um dos maiores pecados do mundo artístico: mostrou ter uma cara sorridente para os fãs e outra nada simpática fora das câmeras.
Não espero perfeição de ninguém e nem é o caso. Trabalho com entretenimento há quase 15 anos – quase a idade dela, aliás – e conheço as regras do jogo. Nós perguntamos, eles respondem. É uma relação profissional e que merece respeito, tanto meu quanto dela. Não me senti desrespeitado, foi apenas fria e impessoal, mas pensei em escrever tudo isso para ponderar esse novo “preço da fama”. Ela sabe que qualquer coisa que disser será exibida por conta de seu apelo comercial, logo, parece tratar esse aspecto de seu trabalho de forma automática, sem pensar muito.
Talvez seja o reflexo de uma vida ensaiada e coreografada, na qual mandar mensagens de texto pelo telefone seja a única vertente ainda não controlada ou vigiada pela imprensa. É algo a se pensar. Todos temos direitos a dias ruins, mas depois de ter visto e conversado com tantas estrelas teens como Demi, e ver todo mundo comprovando as declarações de diversão e família nos sets de filmagem, dar de cara com uma garota rabugenta e vazia foi inesperada. Sempre cobro autenticidade dos atores e pode soar contraditório reclamar de alguém, aparentemente, autêntico – para bem ou para mal –, entretanto esse comportamento robotizado do séria/sorridente pelo click da câmera que chamou a atenção. É difícil manter credibilidade quando se vive dessa maneira… com duas caras e nenhuma mensagem. Só mesmo fã desmiolado pra cair no conto do vigário.
